sábado, 4 de agosto de 2018

072- Depressão - corpo, mente e alma



Com grande expressividade no cenário mundial, a depressão tem apresentado índices alarmantes nos últimos tempos. Já chamada de “o mal do século”, deve atingir entre 15% e 20% da população mundial, no mínimo uma vez na vida. De acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde), até o ano de 2020, tende a ocupar o 2º lugar entre as causas de ônus gerados por doenças degenerativas e mortes prematuras.

Diante de um problema de tamanha seriedade, esta obra foi elaborada com o propósito de servir como um pequeno manual para aqueles que queiram compreender melhor os mecanismos da depressão. Pessoas que estejam buscando formas de auto-ajuda, familiares de deprimidos, espiritualistas, profissionais e estudantes envolvidos com a saúde física e mental, palestrantes de temas motivacionais, entre outros, encontrarão aqui importantes informações colocadas de maneira simples e objetiva. Trata-se de um estudo sobre os sintomas, as possíveis causas, os tratamentos disponíveis e as maneiras de se prevenir essa doença. De forma séria, abrangente e livre de preconceitos, o Transtorno Depressivo é aqui abordado com foco nos aspectos orgânico, psicológico e espiritual, possibilitando ao leitor compreender a participação do corpo, da mente e da alma nos processos de adoecimento e recuperação.

Muito tem se pesquisado sobre esse transtorno de humor que leva milhões de pessoas a perderem o interesse pela vida. O século XX trouxe grandes contribuições ligadas a intervenções psicoterápicas e farmacológicas, além de outras técnicas desenvolvidas com base nos conhecimentos de neurofisiologia e neuroanatomia. Atualmente, os avanços em neurociência têm possibilitado compreender melhor a relação mente-cérebro e criar técnicas de intervenção mais eficientes. Entretanto, muito ainda se tem por conhecer a respeito desse tema que desafia médicos e psicólogos e traz grandes prejuízos pessoais e sociais.

Desde a década de 90, a medicina e a psicologia vêm consolidando o uso associado de recursos farmacológicos e psicoterápicos no tratamento dos quadros depressivos, apoiando a idéia da interferência mútua entre fatores psíquicos e fisiológicos no surgimento dessa patologia.

Apesar desse reconhecido avanço no campo terapêutico, o elemento espiritual é ainda pouco considerado pelos profissionais da área de saúde. Provavelmente por adentrar o campo religioso, muitos dizem que a realidade espiritual é uma questão de fé e não de ciência. Entretanto, há mais de 150 anos, as manifestações dos espíritos vêm sendo investigadas, comprovadas e relatadas por inúmeros pesquisadores de grande respeitabilidade no meio científico. As informações obtidas através desses estudos e de diversas obras psicografadas (ditadas por pessoas desencarnadas) sugerem que o espírito, Ser imortal que habita o corpo e governa a mente, tem participação fundamental na construção dos processos depressivos, exercendo influência sobre a constituição orgânica e a estruturação psicológica, de acordo com o nível de evolução moral e intelectual em que cada pessoa se encontra. Atualmente, alguns grupos ligados à área acadêmica têm se organizado em torno das questões espirituais. Instituições de ensino superior vêm aos poucos conseguindo incluir tal abordagem nos cursos de psicologia e medicina. Colaboram nesse âmbito, os adeptos da Psicologia Transpessoal e a Associação Médico-Espírita do Brasil.

Fazendo um panorama sobre o tema “Depressão”, a presente obra está didaticamente dividida em oito capítulos: o primeiro busca definir o que é depressão, bem como descrever os sintomas mais comuns; o segundo oferece uma visão histórica sobre o desenvolvimento do conhecimento científico sobre o assunto; o terceiro cita dados estatísticos relacionados com a população mundial; o quarto apresenta os contextos nos quais o desencadeamento dessa doença é mais freqüentemente observado; o quinto aborda as possíveis causas psicológicas, orgânicas e espirituais; o sexto faz referência às intervenções médicas e psicoterápicas, assim como a vários recursos terapêuticos complementares ligados às questões energéticas, espirituais e de comportamento; o sétimo traz uma visão sucinta e objetiva do processo de cura; o oitavo e último capítulo é composto por reflexões sobre importantes temas ligados à depressão, englobando dicas de auto-ajuda.

Este trabalho foi produzido a partir de minha prática clínica, pesquisas bibliográficas e de enriquecedoras vivências no campo da depressão. Experiências difíceis, estas últimas, mas que puderam ser sentidas, pensadas, transformadas em exercício de fé, perseverança, esforço pessoal e auto-conhecimento, resultando em expansão de consciência, auto-superação e no desejo sincero de ajudar outras pessoas a perceberem que a vida pode ser vista com cores mais vibrantes quando cuidamos do corpo, da mente e da alma.
Espero que cada leitor possa concluir este estudo com algo a mais dentro de si e com um olhar mais consciente e amoroso sobre o ser humano, suas dores e seus potenciais.

Wagner Luiz



sábado, 28 de julho de 2018

071- Depressão - A fase pré-científica



A depressão é uma das doenças mais preocupantes da atualidade, porém há registros de personagens bíblicos como Jó e o Rei Saul, apresentando sintomas de depressão, tendo este último cometido suicídio e o primeiro sido exemplo de paciência, fé e perseverança.

Apesar de a depressão ter sido foco de muitos estudos nos séculos XIX e XX, historicamente a atenção dada a essa enfermidade remonta a vários séculos antes de Cristo.

Na Grécia antiga o estado melancólico era atribuído a castigos impostos pelos deuses em função de comportamentos incorretos.
Hipócrates (460-377 a.C.), o pai da medicina, foi o primeiro a considerar os comportamentos anormais com causas naturais, ao invés de sobrenaturais como ocorria até então.

No século II a.C., Galeno acreditava que o comportamento era influenciado pelo desequilíbrio de quatro líquidos presentes no corpo: bílis negra, bílis amarela, fleuma e sangue. Afirmava que o elevado nível de bílis negra levaria à melancolia, o aumento de bílis amarela seria responsável pela ansiedade, assim como o excesso de fleuma estaria associado ao temperamento preguiçoso e o de sangue às oscilações rápidas de humor. Com esse entendimento, no intuito de eliminar o excesso de bílis negra, o tratamento do paciente melancólico era feito com sangria, laxativos e vomitórios, o que levava muitos pacientes à morte por desidratação.

No século I da era Cristã, o médico grego Areteu da Capadócia teve marcante participação no entendimento dos quadros depressivos. Foi ele o autor dos principais textos que trouxeram à atualidade a idéia de uma unidade da doença maníaco-depressiva, apontando a mania como resultado do agravamento do quadro de melancolia.

Na Idade Média (500 – 1500 da era cristã), a forte influência religiosa na Europa fez com que as abordagens naturalistas fossem abandonadas e ressurgissem antigas crenças sobre a possessão demoníaca e o uso de tratamentos exorcistas para os transtornos mentais.

Por volta do século XIII, a Igreja católica passa a considerar a melancolia como um pecado, revelando uma fraqueza moral diante das vicissitudes da vida.

Durante o período da escravidão no Brasil, os negros, na condição de isolados de suas pátrias e famílias e privados de sua liberdade, eram acometidos por uma intensa e mortal nostalgia denominada “banzo”. Certamente, experimentavam depressão.

No século XVII, época em que a palavra “depressão” passa a ser utilizada pela literatura inglesa, o filósofo francês René Descartes (1596-1659) reiterou a idéia da cisão entre a mente (alma, espírito) e o corpo, já lançada pelo filósofo Platão (427-347 a.C.).  Descartes afirmava que após a morte do corpo, este se torna apenas uma máquina. Apesar da primeira dissecação humana ter sido registrada pelo filósofo grego Herófilo e pelo anatomista Erasístratro, considerado pai da fisiologia, aproximadamente 250 anos antes da era cristã, a afirmação de Descartes favoreceu a ampliação dos estudos sobre anatomia humana, escassos nos séculos anteriores, uma vez que a Igreja considerava o corpo como algo sagrado por ser a sede da alma. Desta maneira, a tese de Galeno foi sendo substituída pela compreensão de que o cérebro seria o responsável pelas perturbações do humor.




domingo, 3 de junho de 2018

070- Compreender a ansiedade


O nosso sistema nervoso central e a nossa mente necessitam de uma situação de conforto e de segurança para usufruir da sensação de repouso e de bem estar.  Quando a nossa percepção nos alerta para uma situação de perigo a este estado, acontece o estado ansioso. 

Evolutivamente, faz muito pouco tempo que saímos dos tempos da caverna, onde os perigos de vida e a necessidade de luta eram constantes.
 
A excitação do sistema nervoso central vinha como uma forma de estimular o nosso corpo para a luta ou para a fuga.  O que interpretamos como perigo hoje, transcende e muito o perigo de vida biológico.  Perda de status, de conforto, de poder econômico, de afetos, amizades, de privilégios, vantagens, de possibilidade de concretizar interesses, de vaidade, são fatores mais do que suficientes em muitos casos para disparar o estado ansioso.

Em estados de desequilíbrio emocional, o simples contato com o novo, com situações inesperadas e desconhecidas são o suficiente para disparar estados ansiosos.  

A principal característica psíquica do estado ansioso é uma excitação, uma aceleração do pensamento, como se estivéssemos elaborando, planejando uma maneira de nos livrar do perigo e da maneira mais rápida possível.  Este movimento mental, na maioria das vezes, acaba causando uma certa confusão mental, uma ineficiência da ação, um aumento da sensação de perigo e de incapacidade de se livrar do perigo, o que configura um círculo vicioso, pois esta sensação só faz aumentar ainda mais o estado ansioso.


“Mente acelerada é mente desequilibrada”.  Este movimento impulsivo de a mente se acelerar, de precisar ter tudo sob controle, para poder usufruir da sensação de repouso e conforto faz com que ela se excite, e se o problema não tiver uma solução mental imediata, como o que acontece na maioria dos casos, teremos a chamada ansiedade patológica, que tende a se cronificar e piorar com os anos.




sábado, 28 de abril de 2018

069- Como tratar a ansiedade



Existem 3 tipos de remédios que podem ajudar a controlar e diminuir a ansiedade.  Vou tentar falar de cada um deles de forma simples e acessível.  Todos eles só podem ser vendidos sob prescrição médica, exigem receita azul, têm tarja preta, e podem até causar dependência.  Por isso todo o cuidado é pouco.

O primeiro tipo são os chamados ansiolíticos (dissolução da ansiedade) ou tranqüilizantes.  São substâncias que anestesiam parcialmente a sensibilidade neuronal, diminuindo a capacidade de excitação emocional.  Em altas doses, são usados como pré-anestésicos.  Também podem ser usados para induzir o sono.  Servem para combater o sintoma ansiedade, mas não mexem na sua origem.  Funcionam como a Novalgina para combater a febre: diminuem o sintoma, mas não resolvem o problema.  São muito úteis quando a ansiedade está muito alta ou descontrolada, ou quando provocam insônia.  Tem a desvantagem de que podem causar pequena dependência física, importante dependência emocional, e o uso prolongado pode causar tolerância.  Os principais efeitos colaterais são: sonolência, cansaço e fraqueza.  Se você acha que este tipo de remédio pode te ajudar, você deve procurar um psiquiatra.  Ele é o profissional correto para lhe prescrever este tipo de medicação.  Clínicos gerais também podem prescrever em casos de emergência.  O melhor exemplo deste tipo de medicação é o Diazepan (nome genérico).

O segundo tipo de medicação para combater a ansiedade são alguns tipos de antidepressivos.  Este tipo de medicação tem dois efeitos sobre a mente humana: por uma ação sobre os neurotransmissores cerebrais, ele aumenta o nível de energia psíquica, faz a pessoa se sentir mais forte, diminui a quantidade de preocupações e de medo, aumenta a percepção e a clareza que a pessoa tem, fazendo-a sentir-se mais segura e, portanto, menos ansiosa.  Esse efeito das medicações antidepressivas é fascinante e, se for acompanhado de uma boa psicoterapia, não só permite que a pessoa diminua significativamente (diminua significativamente o que ?), como também se torne uma pessoa mais produtiva e bem resolvida.  O segundo efeito é uma ação mais direta sobre a ansiedade propriamente dita.  Não causam dependência física e pouca tolerância.  Podem causar alguma dependência emocional.  Só podem ser vendidos sob prescrição médica, necessitando o chamado receituário especial.  Infelizmente não têm efeito imediato, demorando de 2 a 3 semanas para fazer efeito.  Devem ser tomadas por um período mínimo de 4 meses.  Tem alguns efeitos colaterais, principalmente nos 10 primeiros dias.  O efeito colateral mais chato é uma pequena diminuição da libido e o retardo da ejaculação (as vezes isto é uma vantagem!!!) .  Bons exemplos deste tipo de medicação são: Cloridrato de Sertralina, de Fluoxetina e a Dsispramina (nomes genéricos).

O terceiro tipo de medicação são os chamados tranqüilizantes maiores ou antipsicóticos, que devem ser prescritos em casos mais graves, onde a ansiedade atinge picos altíssimos e estão associados a doenças mentais mais graves, com alteração do pensamento e até da sensopercepção ou por estados desencadeados por drogas alucinógenas.




domingo, 18 de março de 2018

068- Como se livrar da ansiedade



1- Respire fundo, lenta e compassadamente pelo maior tempo que você for capaz, pois isto ajuda a desacelerar fisiologicamente o cérebro e, por consequência, a mente.

2- Entenda que quando um problema novo se configura a sua frente, a solução não está na sua mente, não está no seu pensamento, e sim no fato em si. Quando for possível, olhe para o novo, procure entendê-lo, aumente as suas informações e o seu conhecimento sobre ele. Não busque referências anteriores, pois isto aumentará a sua ansiedade. Se não for possível olhar para o problema (como no exemplo da entrevista), procure não pensar nele, tente distrair a sua mente com outra coisa, brigue (BRIGUE?) com ela para não pensar na entrevista e em suas consequências.

3- Aceite a falta de controle, abra mão da prepotência da sua mente, e entenda que não somos deuses superpoderosos que tudo podemos controlar. Uma parte de nossa vida tem que entregar a Deus, ao destino, à sorte e... Seja o que Deus quiser...

4- Problemas e novidades se resolvem com ação e não com pensamento, é preciso fazer o melhor que está a nosso alcance, focado, ligado no real. O que está além do nosso melhor esforço não podemos controlar.

5- Aceitar a possibilidade de perder, não querer ganhar a qualquer custo, pois isto acelera a mente e aumenta e muito a chance de derrota.

6- Aceite conviver com a insegurança quando ela surgir a sua frente. Não queira se livrar dela. Não tenha pressa. Quanto mais você aceitar conviver com a insegurança, mais calmamente ela irá embora e mais a sua mente e acalmará. Quanto mais você tentar se livrar dela, mais ela se tornará ansiedade.

7- Não se deixar enganar pela mente. Quando ela ficar buzinando internamente que o pior vai acontecer, usar a palavra mágica (NÃO SERIA MELHOR "FRASE MÁGICA", OU "FRASES MÁGICAS"): " Seja o que Deus quiser...". " Foda-se..."

Resumindo: mente acelerada é mente desequilibrada. Para livrar-nos da ansiedade, devemos aprender a escapar do domínio e desacelerar a nossa mente.



sábado, 3 de fevereiro de 2018

067- Como diminuir a ansiedade



Primeiro é preciso entender que a ansiedade é um fato normal quando não é exagerada.

A ansiedade corresponde à excitação do neurônio e a sua necessidade de descarregá-la.

Ela normalmente é desencadeada quando a pessoa entra em contato com situações novas e desconhecidas ou quando a situação contém alto valor afetivo.

Para poder combatê-la, o primeiro passo é identificá-la.  O corpo fica tenso, exite uma necessidade de se movimentar fisicamente (mexer pés ou mãos e inquietação em geral), a respiração está mais acelerada e o pensamento fica agitado (muitas ideias passam pela cabeça de forma acelerada).  Algumas vezes a cabeça fica confusa e não se sabe direito o que se quer.  Uma vez identificado este estado deve-se focar na respiração.  A frequência respiratória precisa ser diminuída.

Deve se inspirar lentamente e encher o pulmão em mais ou menos 75%.  Em seguida deve-se expirar e tirar todo o ar do pulmão (inclusive com a ajuda do diafragma), também de forma lenta.  A respiração tem a capacidade de controlar o corpo e a mente.

Este tipo de exercício deve ser feito por pelo menos 10 minutos e deve-se tentar manter a cabeça vazia.  Os pensamentos precisam sair da mente junto com o ar expirado.  Os Yogues já sabem destas coisas há mais de 3.000 anos.

A ansiedade é desencadeada por preocupações.  Uma incerteza que desperta o nosso pessimismo, e a sensação de algo muito ruim vai acontecer.  E que é preciso fazer algo para evitar o pior.  Atingir as nossas metas e objetivos.  Esta é a hora de parar, quanto maior a nossa pressa para atingir o objetivo, maior a ansiedade.  Não se pode ter pressa para atingir objetivo.

É como dizem os ditados populares:
“O apressado come cru”.
“Devagar se vai ao longe”.

É lógico que não devemos abrir mão de nossos objetivos, mas é preciso que ele seja atingido quando possível e necessário no plano do real, e não na cabeça, o que nos protege é a nossa ação, e não as nossas ideias; portanto, as ideias servem para nos orientar, e não para nos acelerar.

Esvazie a cabeça quando estiver ansioso e confie que, de forma lenta, você  chegará num ponto de proteção, abra mão mentalmente de sua meta e objetivo por um tempo.

Só até recuperar o equilíbrio.
“Mente acelerada é mente desequilibrada” (Isaac Efraim).


Se depois de cuidar da respiração e de esvaziar a cabeça você não melhorar, vá para os remédios, talvez eles te ajudem mais.







sábado, 27 de janeiro de 2018

066- Começando com honestidade


Tenho medo de aprender porque tenho de crescer e assumir a responsabilidade maior que vem com o crescimento. Superficialmente posso pensar que desejo aprender, mas, em níveis mais profundos, o crescimento e a mudança me ameaçam. Daí que, embora tente constantemente melhorar-me e melhorar as minhas relações - sentir mais alegria e ser mais positivo - meus atos são frustrados e alcançam poucos resultados. Por exemplo, a minha decisão de meditar: faço todos os preparativos - dou instruções a mim mesmo. “Permanecerei em silêncio, perfeitamente relaxado e consciente... sem agarrar ou segurar pensamentos”. Mas, durante o tempo de meditação, jogo um jogo complicado. Raramente mantenho a minha mente fixa no momento presente, mais me ocupo de lembranças passadas ou de planos futuros - ou posso, simplesmente, adormecer. Mesmo depois de anos e anos de estudos e disciplina, pouco faço além de preparar-me e instruir-me continuamente - tentando com tanta luta e não começo de verdade.
A experiência é um mestre excelente; posso aprender muita coisa com todos os sofrimentos, frustrações e confusões por que passo. Por fim, meus auto-enganos, ganâncias e emoções negativas me deixaram tão esgotados que mudarei automaticamente. Mais primeiro preciso reconhecer e compreender os resultados de minhas ações. Mesmo depois de terminada a minha vida, esses resultados continuam; portanto se não remover os venenos agora, não há como escapar de mais sofrimentos. Continuarei a ser apanhados entre os dois extremos da cobiça e do sofrimento, no ciclo de muitos níveis de arrependimentos passados, esperanças futuras e confusões presentes. Preciso de uma coragem tremenda para aceitar a minha dor e a minha confusão, pois durante todo esse tempo crio e encorajo o meu sofrimento e, em certas ocasiões, até gosto dele! Parece que não estou pronto para afastar do sofrimento. Continuo a cometer enganos, a criar confusões, a acumular frustrações. O pensamento joga muitos jogos comigo e abrange todos os meus sentimentos, sensações e idéias; entretanto, não estou sequer realmente consciente da maneira com que o pensamento cria seus padrões em minha vida ou da maneira como se desenvolvem minhas várias atitudes negativas e motivações. Tudo o que sei é que continuarei a sofrer com minha dor e com meus problemas até ficar exausto.
Preciso observar com honestidade minha vida diária e enfrentar diretamente minhas fraquezas e problemas. Se for honesto e amar sinceramente a verdade, posso revolucionar a minha vida. Não preciso seguir, às cegas, de determinado sistema, mas posso desenvolver-me à minha própria maneira ouvindo o meu coração e seguindo as verdades que descubro nas minhas experiências. O fato de assumir integralmente o compromisso de encontrar a verdade pode ser um passo positivo, poderoso.
Sem olhar para o passado, posso agora fazer uma escolha para o meu presente. Se estiver decidido a batalhar em mim mesmo de forma honesta e inteligente, muito desenvolvimento proveitoso poderá ocorrer. A honestidade é exigida porque tenho que aprender a cuidar de mim mesmo da melhor maneira possível; requer-se inteligência porque muitos obstáculos precisam ser ultrapassados. A não ser que seja totalmente honesto, acabarei por enganar-me tentando encobrir meus erros ou tentando escapar às minhas dificuldades, em lugar de enfrentar-me e de produzir uma mudança significativa.

SE QUISER ATINGIR A PAZ E O EQUILÍBRIO INTERIOR, PRECISO COMEÇAR COM HONESTIDADE.


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

065- As três peneiras


Olavo foi transferido de setor. Logo no primeiro dia, para fazer média com o novo chefe, saiu-se com esta: - Chefe o senhor nem imagina o que me contaram a respeito do Silva. Disseram que ele...
Nem chegou a terminar a frase, Juliano, o chefe, aparteou: - Espere um pouco Olavo, o que vai me contar já passou pelo crivo das três peneiras?
- Peneiras? Que peneiras, chefe?
- A primeira Olavo, é a da VERDADE. Você tem certeza que este fato é absolutamente verdadeiro?
- Não, não tenho não. Como posso saber? O que sei foi o que me contaram... Mas eu acho que...
E novamente Olavo é interrompido pelo chefe.
- Então sua história já vazou a primeira peneira. Vamos então para a Segunda peneira que é a da BONDADE. O que você vai me contar, gostaria que os outros também dissessem a seu respeito?
- Claro que não! Deus me livre, chefe! – diz Olavo assustado.
- Então – continua o chefe – sua história vazou a Segunda peneira.
Vamos ver a terceira que é a da NECESSIDADE. Você acha mesmo necessário me contar esse fato ou passá-lo adiante? Vai mudar algo em sua vida? Ajudar a edificar algo ou alguém?
- Não, chefe. Passando pelo crivo destas peneiras, vi que não sobrou nada do que eu iria contar – falou Olavo surpreendido...
- Pois é, Olavo. Já pensou como as pessoas seriam mais felizes se todos usassem essas peneiras? – diz o chefe sorrindo e continua – Da próxima vez em que surgir um boato por aí, submeta-se ao crivo dessas três peneiras: Verdade, Bondade, Necessidade, antes de obedecer ao impulso de passá-lo adiante, por que:


PESSOAS INTELIGENTES FALAM SOBRE IDÉIAS,
PESSOAS COMUNS FALAM SOBRE COISAS,

PESSOAS MEDÍOCRES FALAM SOBRE PESSOAS.


segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

064- Aprendendo a perdoar a si mesmo


Primeiro que tudo, você precisa perdoar a si mesmo por não ser capaz de perdoar. Com frequência somos muito duros para com nós mesmos e os outros, por “não sermos suficientemente espirituais”. Saiba que o processo de crescimento faz sentido; e você não pode dar o segundo passo antes de dar o primeiro. Peça compreensão ao Eu Interior e, depois, escute a silente e sutil voz interior.
O Eu Interior nunca assume papel de juiz, não é vingativo, nem indiferente. Percebe a situação claramente e quer agir para o maior bem de todo mundo envolvido. Às vezes isso pode significar a renúncia a uma relação; outras vezes pode significar permitir-se amar novamente e fazer o possível para recuperar uma relação.
Se você está aprendendo a perdoar a si mesmo, é muito importante que se lembre de que está aprendendo a compreender sua real responsabilidade numa relação ou situação. Acostumamos a assumir responsabilidade demais pelo que aconteceu ou está acontecendo. Do mesmo modo, tendemos a ter dificuldade para perdoar os outros, por lhes atribuirmos responsabilidade demais, ou seja, nós os estamos culpando. Encontrar uma perspectiva equilibrada em qualquer situação que envolva questões de responsabilidade e perdão leva tempo, reflexão persistente e a disposição de considerar novas ideias.

A verdadeira autoestima vem, de sabermos que nossa compreensão do Eu, se aprofunda com a experiência. Estamos aprendendo a confiar em nosso próprio compromisso pessoal com o crescimento espiritual. Isto quer dizer que já demonstramos a nós mesmos que podemos mudar e que nossa consciência está evoluindo à medida que enfrentamos os desafios de nossa situação particular.


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

063- Anticolinérgicos


CEBRID – Centro Brasileiro de Informações sobre
Drogas Psicotrópicas
Definição e histórico
Em 1866, um médico da Bahia descreve o seguinte quadro em dois escravos: “Fui chamado a visitar este doentes no dia seguinte às 8 horas da manhã. Já podiam caminhar, mas estavam ainda trôpegos e hallucinados, vendo objetos himaginários, phantasmas, ratos a passear pela camara, etc., de que procuravam fugir dirigindo-se para a porta. Ambos tinham as pupilas dilatadas... a boca e fauces nada oferecem de notável... Na panela que servia para fazer o cosimento estavam dois ramos com muitas folhas e algumas flores rudimentares, de uma planta que conheci ser trombeteira (Datura arborea, Lin)”...
Em 1984 um jovem advogado de São Paulo narrou sua experiência. Após ingerir chá de saia branca: “Os sintomas iniciam-se cerca de 10 minutos mais tarde com queixas de não enxergar direito, vendo tudo embaraçado e fora de foco”. As pupilas estão totalmente dilatadas. Seguem-se alucinações terrificantes, visão de animais e plantas ameaçadoras, cadáveres de índios, pessoas, etc. Algumas horas mais tarde relata que perdeu o pulso e engoliu a língua sendo levado para o pronto socorro”.
Ainda em uma manhã de 1989 um menino de rua com as pupilas muito dilatadas descreveu o que sentia após tomar 10 comprimidos de Artane: “via elefante correndo pela rua e rato saindo do buraco, se olhava para o céu via estrelas de dia. Tava tudo embaçado e dava medo, mas era também bonito”.
Conforme pode-se ver pelas descrições acima, tanto o chá da planta como o medicamento Artane foram capazes de produzir dilatação das pupilas (midríase) e alterações mentais do tipo percepção sem objetivo (ver ratos, índios e estrelas quando estes objetos não existiam), isto é, alucinações.
O que existe de comum entre a planta Trombeteira ou Lírio e o medicamento Artane para produzirem efeito físicos e psíquicos semelhantes? É que duas substâncias sintetizadas pela planta atropina e/ou escopolamina – e o próprio remédio tem um efeito no nosso organismo que a medicina chama de efeito anticolinérgico.
E sabe-se que todas as drogas anticolinérgicas são capazes de, em doses elevadas, além dos efeitos no nosso corpo, alterar as nossas funções psíquicas.


Efeitos no cérebro
Os anticolinérgicos, tanto de origem vegetal como os sintetizados no laboratório, atuam principalmente produzindo delírios e alucinações. São comuns as descrições pelas pessoas intoxicadas de se sentirem perseguidas, de verem pessoas e bichos, etc. Este delírios e alucinações dependem bastante da personalidade da pessoa e de sua condição, assim, nas descrições de usuários destas drogas, encontram-se relatos de visões de santos, animais, estrelas, fantasmas, entre outras imagens. Os efeitos são bastante intensos, podendo demorar até 2-3 dias. Apesar disso, o uso de medicamentos anticolinérgicos (com controle médico) é muito útil no tratamento de algumas doenças como, por exemplo, a Doença de Parkinson.


Efeitos no resto do corpo
As drogas anticolinérgicas são capazes de produzir muitos efeitos periféricos. Assim, as pupilas ficam muito dilatadas, a boca seca e o coração pode disparar. Os intestinos ficam paralisados – tanto que eles são usados medicamente como antidiarréicos – e a bexiga fica “preguiçosa” ou há retenção de urina.


Efeitos tóxicos
Os anticolinérgicos podem produzir em doses elevadas grande elevação da temperatura que chega às vezes até 40-41ºC. Nestes casos, felizmente não muito comuns, a pessoa apresenta-se com a pele muito seca e quente com vermelhidão principalmente no rosto e pescoço. Esta temperatura elevada pode provocar convulsões (“ataques”) e são por isto bastante perigosas. Existem pessoas também que descrevem ter “engolido a língua” e quase se sufocarem por causa disto. Ainda, em casos de dosagens elevadas, o número de batimentos do coração sobe exageradamente, podendo chegar até acima de 150 batimentos por minuto.


Aspectos Gerais
O abuso destas substâncias é relativamente comum no Brasil. O Artane chega a ser a terceira droga mais abusada entre meninos em situação de rua de algumas capitais no Nordeste (após os inalantes e a maconha). Nas demais regiões o uso de anticolinérgicos é bem menos frequente.

Estas drogas não desenvolvem tolerância no organismo e não há descrição de Síndrome de Abstinência após a parada de uso contínuo.


quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

062- Ansiedade


A sensação de desconforto e apreensão experimentada pela antecipação, real ou imaginária, de situações desagradáveis é chamada de “ansiedade”. A competição, os estudos, o trabalho e outras atividades e situações da vida moderna tendem a produzir ansiedade, que pode decorrer também de conflitos com amigos ou do desgaste provocado por situações nunca antes experimentadas.
Dependendo de fatores como personalidade e temperamento, a ansiedade manifesta-se como uma preocupação vaga ou como um medo concreto de que alguma coisa terrível venha a acontecer.
Não é difícil entender por que as discussões e os conflitos com a família ou com os amigos podem provocar ansiedade. Esses conflitos geralmente envolvem receio de algum prejuízo emocional. Embora tal prejuízo possa não ser real, o medo que desencadeia é verdadeiro. Às vezes, chega mesmo a afetar a auto-imagem do indivíduo, que passa a duvidar de si mesmo e de sua eficiência no desempenho de funções corriqueiras.
A ansiedade é normalmente um sinal que alerta as pessoas para o fato de que algo não vai bem, e as prepara para enfrentar o problema (ou os problemas), colocando-as de sobreaviso. A ausência de ansiedade num quadro de stress pode deixar o indivíduo apático e fazê-lo adotar atitudes do tipo “eu não me importo com nada”, que fatalmente predispõem ao fracasso. Por isso, níveis moderados de ansiedade podem ser benéficos, motivam a pessoa a lhe fornecerem uma sobrecarga de energia, aumentando-lhe a capacidade para localizar e resolver o problema aflitivo.
Já os níveis elevados de ansiedade tendem a ser prejudiciais, causando sentimentos de desconforto e inquietação tão intensos que dispersam as energias do indivíduo, esgotando-o física e mentalmente. No caso de ansiedade crônica, que persiste por semanas ou meses, o efeito desgastante sobre o indivíduo torna-o muito tenso, e podem ocorrer manifestações físicas como transpiração excessiva, aceleração dos batimentos cardíacos e insônia. A capacidade de concentração também fica prejudicada. Embora esses sintomas às vezes caracterizem também a ansiedade normal, sua persistência por longo período de tempo indica que a ansiedade está fora de controle.
Quando isso acontece, a ansiedade não está mais servindo como um aviso: ela dominou o indivíduo e se tornou fonte de problemas, frequentemente não mais relacionados com a situação de stress que lhe deu origem.
O excesso de ansiedade decorre de inúmeros fatores. A pessoa pode estar simplesmente sobrecarregada ou ser obrigada a tomar grande número de decisões importantes em curto período de tempo. Uma sucessão de eventos estressantes provoca em muitas pessoas ansiedade profunda.

A ansiedade em geral é superada quando desaparecem os problemas que a provocaram. Mas, quando vai além deles, é importante procurar ajuda e consultar um médico.


sábado, 30 de dezembro de 2017

061- Ansiedade e Sexo


Muitos não sabem, mas sexo é um dos grandes escapes de ansiedade, um dos maiores. No sexo acontece uma grande liberação de energia, que descarrega a ansiedade; por isto o sexo é tão fundamental para o homem. A ansiedade sempre afeta a sexualidade humana. Interessante como em casos de muita ansiedade a postura sexual é alterada: alguns ficam mais agressivos, outros totalmente tensos; as mulheres ficam frígidas, os homens tem ejaculação precoce, ou vontade de arrebentar “aquela vagabunda na cama”.
A maior parte das fantasias sexuais tem a ver com o tipo de ansiedade que a pessoa tem: alguns tem ansiedade e tem vontade de bater, outros de apanhar e por aí vai. Nesta seção iremos ver onde e como a ansiedade afeta a vida sexual de homens e mulheres. Boa sorte.
Muita gente não entende por que existem pessoas que tem compulsões de ordem sexual. Os homens são classificados como tarados, galinhas, vigaristas, inadequados e incapazes de amar.
As mulheres são chamadas de prostitutas, vagabundas, promíscuas, não confiáveis, e outros que tais. A proposta aqui não defender e nem atacar nenhum tipo de comportamento, muito menos de ordem sexual, mas sim de permitir que possamos entender o nosso comportamento e o das pessoas que estão a nossa volta.
A ansiedade gera um estado de tensão, de retenção muscular, que para algumas pessoas tem um registro semelhante à excitação sexual. Para estas pessoas a tensão está à flor da pele, e qualquer toque físico ou a qualquer estimulação sexual, mesmo que seja da imaginação, desencadeia aquilo que chamamos de tesão, uma reatividade dos órgãos sexuais (o homem fica com o pênis ereto e intumescido, a mulher tem secreções vaginais, a pelo e bico dos seios arrepiados), e uma necessidade compulsiva de se libertar desta tensão através do orgasmo. É o chamado prazer do alívio. Ele costuma ser um tesão intenso, mas produz um orgasmo de má qualidade. Como a pessoa é cronicamente ansiosa, a tensão volta rapidamente, assim como também volta a necessidade de estimulação sexual. Nesse estado, as necessidade fisiológicas falam muito mais alto do que qualquer questão afetiva, fazendo ser meio indiferente o parceiro ou parceira. Para este tipo de pessoa, quanto maior o seu estado de ansiedade, maior a sua necessidade sexual, maior a necessidade de descarga de adrenalina (ter o ato sexual em situações ou com pessoas potencialmente perigosas), se masturbar compulsivamente, como formas de aliviar o seu alto grau de ansiedade.
Uma vez que a pessoa trate de sua ansiedade, a sua vida sexual encontrará um equilíbrio e uma qualidade antes jamais conhecidos.




terça-feira, 19 de dezembro de 2017

060- Ansiedade


O que é ansiedade e porque ficamos ansiosos?
A ansiedade é uma sensação ou sentimento decorrente da excessiva excitação do Sistema Nervoso Central consequente à interpretação de uma situação de perigo. Parente próxima do medo (muitas vezes onde a diferenciação não é possível), é distinguida dele pelo fato de o medo ter um fator desencadeante real e palpável, enquanto na ansiedade o fator de estímulo teria características mais subjetivas.

A ansiedade é o grande sintoma de características psicológicas que mostra a intersecção entre o físico e psíquico, uma vez que tem claro sintomas físicos, como: taquicardia (batedeira), sudorese, tremores, tensão muscular aumento das secreções (urinárias e fecais), aumento da motilidade intestinal, cefaleia (dor de cabeça). Quando recorrente e intensa também é chamada de Síndrome do Pânico (crise ansiosa aguda). Toda esta excitação acontece decorrente de uma descarga de um Neurotransmissor chamado Noradrenalina, que é produzido nas suprarrenais, lócus cerúleos e núcleo amigdaloide.


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

059- ANFETAMINAS - Bolinhas / Arrebites


CEBRID – Centro Brasileiro de Informações sobre
Drogas Psicotrópicas


Definição
As anfetaminas são drogas estimulantes da atividade do sistema nervoso central, isto é, fazem o cérebro trabalhar mais depressa, deixando as pessoas mais “acesas”, “ligadas” com “menos sono”, “elétricas”, etc. É chamada de rebite principalmente entre os motoristas que precisam dirigir durante várias horas seguidas sem descanso, a fim de cumprir prazos pré-determinados. Também é conhecida como bolinha por estudantes que passam noites inteiras estudando, ou por pessoas que costumam fazer regimes de emagrecimento sem o acompanhamento médico.
No U.S.A., a metanfetamina (uma anfetamina) tem sido muito consumida na forma fumada em cachimbos, recebendo o nome de “ICE” (gelo).
Outra anfetamina, metilenodióximetanfetamina (MDMA), também conhecida pelo nome de “Êxtase”, tem sido uma das drogas com maior aceitação pela juventude inglesa e agora, também, com um consumo crescente nos U.S.A..
As anfetaminas são drogas sintéticas, fabricadas em laboratório. Não são, portanto, produtos naturais. Existem várias drogas sintéticas que pertencem ao grupo das anfetaminas e como cada uma delas pode ser comercializada sob a forma de remédio, por vários laboratórios e com diferentes nomes de fantasia.


Efeitos no Cérebro
As anfetaminas agem de uma maneira ampla afetando vários comportamentos do ser humano. A pessoa sob sua ação tem insônia (isto é, fica com menos sono) inapetência (ou seja, perde o apetite), sente-se cheia de energia e fala mais rápido ficando “ligada”. Assim, o motorista que toma o “rebite” para não dormir, o estudante que ingere “bolinha” para varar a noite estudando, um gordinho que as engole regularmente para emagrecer ou ainda uma pessoa que se injeta com uma ampola de Pervitin ou com comprimidos dissolvidos em água para ficar “ligadão” ou ter um “baque” estão na realidade tomando drogas anfetamínicas.
A pessoa que toma anfetaminas é capaz de executar uma atividade qualquer por mais tempo, sentindo menos cansaço. Este só aparece horas mais tarde quando a droga já se foi do organismo; se nova dose é tomada as energias voltam embora com menos intensidade. De qualquer maneira as anfetaminas fazem com que um organismo reaja acima de suas capacidades exercendo esforços excessivos, o que logicamente é prejudicial para a saúde. E o pior é que a pessoa ao parar de tomar sente uma grande falta de energia (astenia) ficando bastante deprimida, o que também é prejudicial, pois não consegue nem realizar as tarefas que normalmente fazia antes do uso dessas drogas.


Efeitos no resto do corpo
As anfetaminas não exercem somente efeitos no cérebro. Assim, agem na pupila dos nossos olhos produzindo uma dilatação (o que em medicina se chama midríase); este efeito é prejudicial para os motoristas, pois à noite ficam mais ofuscados pelos faróis dos carros em direção contrária. Elas também causam um aumento do número de batimentos do coração (o que se chama taquicardia) e um aumento da pressão sanguínea. Aqui também podem haver sérios prejuízos à saúde das pessoas que já têm problemas cardíacos ou de pressão, que façam uso prolongado dessas drogas sem o acompanhamento médico, ou ainda que se utilizarem de doses excessivas.


Efeitos tóxicos
Se uma pessoa exagera na dose (toma vários comprimidos de uma só vez) todos os efeitos acima descritos ficam mais acentuados e podem começar a aparecer comportamentos diferentes do normal: ela fica mais agressiva, irritadiça, começa a suspeitar de que outros estão tramando contra ela: é o chamado delírio persecutório. Dependendo do excesso da dose e da sensibilidade da pessoa pode aparecer um verdadeiro estado de paranóia e até alucinações. É a psicose anfetamínica. Os sinais físicos ficam também muito evidentes: midríase acentuada, pela pálida (devido à contração dos vasos sanguíneos) e taquicardia.
Essas intoxicações são graves e a pessoa geralmente precisa ser internada até a desintoxicação completa. Às vezes durante a intoxicação a temperatura aumenta muito e isto é bastante perigoso pois pode levar a convulsões.
Finalmente trabalhos recentes em animais de laboratório mostram que o uso continuado de anfetaminas pode levar à degeneração de determinadas células do cérebro. Este achado indica a possibilidade de o uso crônico de anfetaminas produzir lesões irreversíveis em pessoas que abusam destas drogas.


Aspectos Gerais
Quando uma anfetamina é continuamente tomada por uma pessoa, esta começa a perceber com o tempo que a droga faz a cada dia menos efeito; assim, para obter o que deseja, precisa ir tomando a cada dia doses maiores. Há até casos que de 1-2 comprimidos a pessoa passou a tomar até 40-60 comprimidos diariamente. Este é o fenômeno de tolerância, ou seja, o organismo acaba por se acostumar ou ficar tolerante à droga.
Discute-se até hoje se uma pessoa que vinha tomando anfetamina há tempos e pára de tomar, apresentaria sinais desta interrupção da droga, ou seja, se teria uma Síndrome de abstinência. Ao que se sabe algumas pessoas podem ficar nestas condições em um estado de grande depressão, difícil de ser suportada; entretanto, isto não é uma regra geral, isto é, não aconteceria com todas as pessoas.


Informações sobre consumo
O consumo destas drogas no Brasil chega a ser alarmante, tanto que até a Organização das Nações Unidas vem alertando o Governo brasileiro a respeito. Por exemplo, entre estudantes brasileiros do 1º e 2º graus das 10 maiores capitais do país, 4,4% revelaram já ter experimentado pelo menos uma vez na vida uma droga tipo anfetamina. O uso frequente (6 ou mais vezes no mês) foi relatado por 0,7% dos estudantes. Este uso foi mais comum entre as meninas.

Outro dado preocupante diz respeito ao total consumido no Brasil: em 1995 atingiu mais de 20 toneladas, o que significa muito milhões de doses.



terça-feira, 5 de dezembro de 2017

058- Alterações Cerebrais


Além do uso agudo de drogas modificarem o funcionamento cerebral de forma crítica, momentânea e aguda, o consumo prolongado pode causar alterações bastante abrangentes na função cerebral, alterações estas que persistem por muito tempo depois da pessoa parar com o uso da substância. O cérebro do drogadicto é claramente diferente do cérebro do não-drogadicto, como revelam as alterações na atividade metabólica cerebral, na disponibilidade de receptores, na expressão dos genes e na capacidade de resposta a estímulos ambientais.
Algumas alterações cerebrais de longa duração são características de drogas específicas, enquanto outras alterações são comuns a muitas drogas diferentes. Essas alterações cerebrais comuns a várias substâncias sugerem que o mecanismo cerebral de todas as dependências pode ser o mesmo.
Entendendo que a drogadicção é, basicamente, causa ou consequência de alterações da função cerebral, um dos principais objetivos do tratamento deve ser tentar corrigir essas alterações cerebrais. Esse objetivo pode ser obtido através de tratamentos medicamentosos ou psicológicos (os tratamentos psicológicos têm tido sucesso na modificação da função cerebral em outros transtornos psicobiológicos).
No nível neurobiológico, dois modelos neuroadaptativos foram concebidos para explicar as mudanças na motivação para a procura de drogas que refletem o uso compulsivo: a contra-adaptação e a sensibilização.
A hipótese da contra-adaptação está intimamente ligada ao desenvolvimento de tolerância do prazer, ou tolerância hedonista, na formulação conhecida como teoria do processo oposto.
Ao contrário, a sensibilização, isto é, o aumento progressivo do efeito de uma droga cada vez que é novamente administrada, concebe as mudanças de motivação como um deslocamento dentro de um estado de incentivo-saliência.
As duas concepções focalizam as alterações neurobiológicas nos níveis moleculares, celulares e de sistemas. Os dois sistemas podem implicar o que se tem chamado de alterações “dentro de um mesmo sistema” e “entre sistemas”. As alterações dentro de um mesmo sistema, a nível neuroquímico, diz respeito às alterações nos mesmos neurotransmissores implicados nos efeitos agudos do uso da droga e alterados durante o desenvolvimento de dependência química.
Entre os eventos neuroquímicos contra-adaptativos que ocorrem dentro do mesmo sistema, encontram-se a redução da neurotransmissão dopaminérgica e serotonérgica no núcleo acumbes, durante a abstinência de opiáceos crônicos, assim como transmissão GABAérgica diminuída e glutamatérgica aumentada durante a abstinência alcoólica.
A sensibilização aos efeitos dos estimulantes psicomotores e opiáceos também parece estar envolvida na ativação dentro do mesmo sistema nas estruturas mesolímbicas dopaminérgicas. Aparentemente há uma cadeia de adaptações que depende do tempo, dentro destas estruturas, que leva às alterações prolongadas provocadas pela sensibilização.
Modificações em outros sistemas de neurotransmissão não-relacionados aos efeitos de reforço agudo da droga, mas ativados durante a sua administração crônica, têm sido concebidas como adaptações entre sistemas. Exemplos de contra-adaptações inter-sistemas são, entre outros, aumento da função dinorfínica no núcleo acumbens durante a administração crônica de cocaína, aumento do nível de peptídeos anti-opióides associado à administração crônica opióides e presença aumentada de sistemas cerebrais de esforço, como fator liberador de corticotrofina (FLC) como cocaína, opiáceos, álcool e maconha.
Recentes observações neuroanatômicas, neuroquímicas e neurofarmacológicas têm proporcionado sustentação para a noção da existência de um circuito cerebral específico dentro do cérebro anterior talvez capaz de mediar alterações neuroquímicas intra e inter-sistemas, associados à recompensa da droga. As amígdalas cerebrais constituem uma macroestrutura que engloba várias estruturas cerebrais anteriores basais que apresentam semelhanças em termos de morfologia, neuroquímica e conectividade.
A sustentação para a hipótese de que as amígdalas desempenham papel ativo nos efeitos de reforço agudo das drogas passíveis de consumo abusivo pode ser encontrada numa série de microdiálise in vivo e em estudos neurofarmacológicos que demonstraram ativação seletiva da dopamina na cápsula do núcleo acumbens por parte das principais drogas que criam adicção.
Além disso, mecanismos GABAérgicos e opioidenérgicos no núcleo central das amígdalas podem participar das ações de reforço agudo do álcool. O núcleo central da amígdala também pode funcionar em contra-adaptação ao sistema de recompensa do cérebro durante o desenvolvimento da dependência química. A administração crônica de drogas pode alterar o nível de FLC e a expressão do gene pró-opiomelanocortina nas amígdalas. Resposta aumentada do FLC no núcleo central das amígdalas encontra-se associada à abstinência aguda de álcool, opiáceos, cocaína e maconha.

O sistema mesolímbico dopaminérgico encontra-se claramente envolvido, porém nenhuma sub-região específica pode ainda ser delineada. Os glicocorticóides podem ativar o sistema mesolímbico dopaminérgico através do aumento da síntese de dopamina, da redução do metabolismo da dopamina e da diminuição da captação de catecolaminas. Pesquisas da participação de uma subprojeção específica do sistema mesolímbico na sensibilização encontram-se em andamento.


quinta-feira, 30 de novembro de 2017

057- Alcoolismo. Onde está a doença primária?



Alberto Duringer – Médico
Vamos imaginar que um médico seja chamado para atender caso de pneumonia e encontre uma família muito preocupada, porque o doente está com febre alta, tosse e intensa dor nas costas.  Todos ali estão alarmados com os fortes sintomas que o doente apresenta e só falam neles.  Já tendo visto diversas situações semelhantes, o médico dá importância menor a estas queixas, identifica que a doença primária é pneumonia e enfatiza a necessidade de antibióticos.  Seria grave equivoco diagnosticar a doença primária como sendo tosse e se limitar a um xarope qualquer ou como sendo dor nas costas, receitando só um analgésico.

O que é fácil na pneumonia, doença aguda e de aparecimento rápido, fica muito mais difícil no alcoolismo, doença crônica, progressiva e de evolução lenta, onde muitos sintomas só vão aparecer anos após o início da enfermidade.  Ao ver o doente pela primeira vez, frequentemente já em estado avançado, o médico ouve do alcoólatra e de seus familiares uma série de queixas ligadas a adoecimento físico importante, a distúrbio de comportamento que pode beirar a loucura e acentuada perda de valores ético-morais, ficando sem saber direito o que apareceu primeiro e onde está a doença básica, a qual deve ser seu primeiro alvo de tratamento.

Até o final do século passado, quase todos admitiam estar a origem do alcoolismo na esfera ético-moral:  o alcoólatra bebia porque era fraco de caráter, porque não dispunha de reservas morais para resistir ao vício ou simplesmente porque não tinha vergonha na cara.  Estando a doença primária nesta área e tendo sua origem numa sem-vergonhice, o tratamento limitava-se a umas lições de moral, alguns bons conselhos ou exortações de cunho religioso, sendo os resultados obtidos bastante precários.

Depois da publicação das obras de Freud, muitos profissionais passaram a ver as coisas de forma diferente e começaram a situar a doença primária na esfera psíquica.  A origem do problema estaria em algum conflito de personalidade, em algum trauma profundamente escondido no subconsciente e este distúrbio fazia com que o doente passasse a beber descontroladamente.  Visto desta forma, o tratamento mudou bastante:  agora, o doente era deitado em um divã, fazendo análise durante muito tempo, na tentativa de descobrir a razão deste seu comportamento.  Gerações de analistas e gerações de alcoólatras perderam seu tempo nesta busca, os últimos bebendo cada vez mais.

Hoje em dia, há muita gente colocando a doença primária na esfera social.  O doente é pobre, às vezes miserável, ganha salário mínimo, mora na favela, tem família numerosa, às vezes passa fome e diante de tantas desgraças juntas, só pode mesmo tornar-se alcoólatra.  Ele bebe para esquecer.  Pensando assim, o tratamento fica difícil, mas não impossível:  vamos admitir este alcoólatra ganhar sozinho a Sena da Loto e transformar-se em um milionário, da noite para o dia, ficando automaticamente curado de sua doença primária, a pobreza.  Agora, rico e com seu problema resolvido, não tem mais motivos para beber ou no máximo vai fazê-lo socialmente.  Alguns exemplos conhecidos mostram que na prática as coisas não são assim e, além do mais, esta teoria tem também o grave defeito de ser muito paralisante;  como o profissional de saúde não pode transformar todos os seus doentes em pessoas que morrem em boas casas, não passem fome e ganhem salários dignos, acaba ele cruzando os braços e diz nada poder fazer:  culpada é a situação do País, que ele não pode modificar.

Neste ponto, vale a pena citar estatística do governo suíço, publicada recentemente em Genebra.  Em 1989, 90% dos suíços beberam dez por cento das bebidas alcoólicas colocadas a venda; os outros 10% acabaram bebendo noventa por cento do álcool disponível no país.  Em outras palavras, na Suíça temos o mesmo número aproximado de alcoólatras que nos demais países ocidentais, embora não tendo, nem de longe, os problemas sociais que enfrentamos no Brasil.  Aqui, o INAMPS estima o número de alcoólatras em 14 milhões, percentualmente número bastante parecido.

Na realidade, a origem do alcoolismo, a doença primária, dificilmente pode ser procurada na área psíquica, social ou ético-moral.  As esmagadoras maiorias dos pacientes adoecem primariamente pelo lado físico; começam a beber sem problemas, como a maioria das pessoas, mas por uma série de fenômenos próprios do seu organismo, como as enzimas que têm no seu fígado ou as combinações que, derivadas do álcool fazem com que seus neurotransmissores cerebrais acabem mais tarde transformando-as em alcoólatras.

Estas enzimas existem no fígado humano para decompor e eliminar o álcool ingerido, transformando-o numa primeira etapa em uma substância bastante tóxica, denominada acetaldeido.  Este acetaldeido, normalmente também completamente decomposto e eliminado, começa em alcoólatras a se combinar com diversos neurotransmissores, como por exemplo dopamina ou serotonina, dando origem a um grupo de outras substâncias, denominadas tetrahidroisoquinolinas, abreviadamente conhecidas como TIQs.  Existem TIQs, como o THP (tetrahidropapaverolina), que têm ação muito parecida com a da morfina.

Pois bem, macacos injetados com TIQs, em experiências feitas na universidade da Carolina do Norte, desenvolveram enorme avidez por álcool, que passaram a beber em grande quantidade, até atingir estágio de consumo irreversível.  Existem ratos os quais, por sua natureza, rejeitam completamente qualquer líquido que contenha etanol, mesmo pequenas quantidades, preferindo passar sede e até morrerem desidratados, injetados com TIQs, transformam-se em grandes consumidores de álcool e morrem de cirrose.  Há muitas outras experiências com animais de laboratório, com resultados semelhantes.  Daí para a frente, fica muito difícil explicar que estes animais estavam bebendo por quaisquer razões psíquicas, éticas ou sociais, porque a origem do processo (doença primária) estava, na realidade, relacionada com a injeção de uma substância química proveniente de alcoólatras humanos.

Em outras palavras, a doença primária, no caso do alcoolismo, é adoecimento físico – a síndrome da dependência química ao álcool etílico – que se situa no cérebro dos alcoólatras e não na mente.  Mesmo que o alcoólatra não tenha mais TIQs circulando, por não estar bebendo, isto não significa seu cérebro ter desaprendido as reações químicas necessárias para seu aparecimento.  Nestes sentido, alcoolismo é doença incurável, porque a capacidade de reagir ao álcool de forma diferente à dos não-alcoólicos fica marcada no organismo.  Não há força de vontade ou reserva moral capaz de impedir a fabricação de TIQs na presença de álcool etílico, nesta pessoa.  Ao voltar a beber, a produção de TIQs retorna também aos níveis de antes, provocando a perda do controle e a instalação de recaída mais ou menos rápida.

Nas dependências químicas, de modo geral, observa-se clinicamente o organismo passar a fabricar e a colocar em circulação substâncias de efeito oposto ao da droga que está sendo usada.  Portanto, na ausência dela, vão surgir sintomas contrários aos dos períodos de uso – é o que se chama de síndrome de abstinência.  Assim, quem for dependente de remédio para dormir, vai ter insônia na noite em que não tomar o comprimido, quem for dependente de café, vai sentir-se sonolento na manhã em que não o ingerir, tudo variando de acordo com a droga utilizada e a intensidade da dependência por ela provocada.

No alcoolismo, alguns TIQs seguem esta linha e têm efeito excitante, já que o álcool é depressor do sistema nervoso central.  Durante o sono, o organismo do alcoólatra elimina álcool e fabricam substâncias excitantes, fazendo-o acordar pela manhã nervoso, trêmulo, inquieto, ansioso, com pulso acelerado, sensações estas todas muito desagradáveis.  Pela experiência, sabe ele que o melhor remédio para voltar ao normal e parar de tremer é ingerir algumas doses de álcool – e o ciclo recomeça.

Note:  o alcoólatra que busca desesperadamente um bar ou padaria que abra às 5 horas da manhã, para tomar sua bebida, não está mais movido pela busca do prazer ou da companhia dos amigos; não está também querendo embriagar-se, ele busca apenas alívio para uma situação muito desagradável, a impedi-lo até de ir para o emprego, através do único remédio que ele conhece, muitas vezes já agora cheio de culpas e vergonhas.  Usa manhas e artifícios para esconder dos outros a quantidade de álcool que bebe; começa a ter medo de estar em lugares ou situações onde talvez não possa beber.  O álcool passa cada vez mais a ter papel preponderante em sua vida, já que, para sentir-se normal, depende quimicamente dele.  Com as várias negações e racionalizações, surge processo de adoecimento psíquico ou comportamental, a sobrepor-se ao físico, já existente.  Na maioria das vezes, só aí passa a chamar a atenção como doente, apesar de o início do processo estar situado muitos anos atrás.

Ao partir do princípio de a doença básica no alcoolismo ser uma dependência química, existe uma ordem no adoecimento:  primeira a física, segunda, psíquica e terceira, espiritual (ou ético-moral), podendo haver muitos anos de intervalo antes de uma área estender-se para outra, até que todas as três estejam comprometidas.

Desta forma, qualquer recuperação, para ser bem-sucedida, tem de seguir a ordem natural das coisas e começar pelo lado físico:  primeiro, o doente tem que parar de beber.  Iniciada a abstinência, pode vir a busca da sanidade psíquica.  Finalmente, encontrando-se o paciente física e emocionalmente equilibrado, sem álcool, pode ele recuperar ou adquirir novos conceitos ético-morais.  Um alcoólatra fragilizado, doente e rejeitado pode fazer isto tudo sozinho?

Torna-se evidente a necessidade de ajuda externa, a qual não deve ser tarefa privativa de Alcoólicos Anônimos.  Médicos, psicólogos, assistentes sociais, agentes de saúde em alcoolismo, cada um na sua área profissional, mas formando uma equipe multidisciplinar, vêm tendo cada vez mais importância no trabalho de recuperar alcoólatras.

Alcoólicos Anônimos, irmandade não-profissional, que não se envolve em controvérsias, que não age por promoção e sim por atração, é sem dúvida recurso da maior importância.   Seus membros não aceitam ajuda externa e não visam a proveito financeiro, ou prestígio pessoal, concentram-se na atividade de ajudar outros alcoólatras a também se recuperarem.

Historicamente, foi o A.A. quem primeiro percebeu a existência de uma história natural do alcoolismo e que a doença básica era um processo físico, tanto é que atua obedecendo a este ordenamento:  primeiro, o alcoólatra é convidado apenas a parar de beber, nem que seja por 24 horas; nesta fase inicial, ainda muito confuso e fragilizado, não se pode mesmo exigir muito mais dele e para confortá-lo e fortalecê-lo, oferecem-se as milhares de reuniões existentes no Brasil inteiro.  Segundo, havendo já um raciocínio mais lúcido e melhor aceitação de sua doença, passa-se a oferecer um programa individual de recuperação, a nível de comportamento e relacionamento com o mundo exterior, que se resume numa escalada de 12 Passos, em seqüência.  Terceiro, abstinente e reconciliado consigo mesmo e com o mundo lá fora, o alcoólatra encontra novos valores espirituais, como, por exemplo, os que se alicerçam nas 12 Tradições de Alcoólicos Anônimos, dispondo-se inclusive a ajudar outros alcoólatras a também se recuperarem.

Tratando-se de doença crônica, o alcoolismo exige permanente ação de recuperação:  trata-se de programa para toda a vida.  Frequentemente, encontram-se recuperações apenas parciais, em que alcoólicos param apenas de beber e mais nada, recusando-se a fazer mudanças no seu comportamento, atitudes e valores; estas pessoas estão abstinentes, mas ainda muito adoecidas psíquica e emocionalmente.  A esta situação, a comunidade de A.A. costuma dar o nome de “porre seco”.

A vigilância sobre o perigo da recaída deve ser permanente, já que é engano pensar que ela se inicia no primeiro gole.  Na realidade, a recaída termina nele, uma vez que aí o processo é inverso:  primeiro, o doente perde valores espirituais, depois fica emocionalmente desajustado, voltando a apresentar distúrbios de comportamento, até que finalmente volta a beber.  Há uma série de sintomas precedentes desta volta e muitos podem ser percebidos pelo próprio ou por pessoas que o cercam, desde que estejam vigilantes.  A recaída emocional pode ser perfeitamente revertida, antes de o doente estar com seu raciocínio crítico tão perturbado, a ponto de achar que o álcool possa ser novamente solução para seus problemas.

Recuperação e recaída são como duas faces da mesma moeda, quem não está se recuperando, estará recaindo e vice-versa.  Esta gangorra, no plano puramente emocional, é absolutamente normal e não deve assustar ninguém além da sua justa medida.  Outros doentes crônicos, o diabético com sua dieta, o reumático com seus exercícios, o hipertenso e seus cuidados com o sal, apresentam de modo diferente a mesma problemática de recuperação e recaída.

No alcoolismo, importante é não deixar qualquer recaída evoluir a ponto de voltar a beber, porque aí entram em ação as poderosas forças da doença primária – a dependência química – e aí a situação fica novamente fora do controle do doente.