terça-feira, 14 de novembro de 2017

053- Alcoolismo e dor-de-cotovelo


Uma das lendas mais populares sobre o alcoolismo é aquela segundo a qual uma pessoa se torna alcoólatra porque teve alguma tragédia amorosa na vida. É a “teoria Vicente Celestino”: “Tornei-me um ébrio e na bebida busco esquecer aquela ingrata que eu amava e que me abandonou”.
A hipótese que está por trás desses versos é a de que existia um homem trabalhador, honesto, cheio de amor para dar e que deu tudo que tinha e o que não tinha para o seu bem-querer. E que fez essa aventureira, sem caráter ou gratidão? Sem nenhum motivo, abandonou-o! A traição foi demais para quem sempre fora só carinho e compreensão.
Pelo menos, essa é a versão do alcoólatra da canção. Terá sido essa a verdadeira estória? Não seria ele, há muito tempo, um biriteiro enrustido, que apronta sem parar e jamais admite se exceder em nada? Não terá ela suportado tudo o que uma mulher não pode suportar e, só depois de ultrapassados todos os limites, desistido?
Jamais saberemos. O que sabemos é que muitas e muitas vezes a verdadeira versão é essa. Quase todas as músicas de fossa desenvolvem essa teoria da dor-de-cotovelo como causa do alcoolismo. Mas essa teoria não leva em conta vários fatores.
Logo de saída, muita gente sente dor-de-cotovelo e nem por isso torna-se um ébrio, tentando resolvê-la nos copos de um bar. Algumas pessoas até tomaram um ou dois pileques por causa de algum sofrimento amoroso, mas nem de perto adquiriram uma compulsão etílica.
E mais. Se alguém fizer um cálculo estatístico da porcentagem daqueles que perderam um grande amor e se tornaram ébrios, vai verificar que não é maior nem menor do que entre aqueles que não perderam um grande amor: os mesmos 10% a 13% vão sempre se repetir!
O máximo que a dor-de-cotovelo pode fazer é deflagrar ou acelerar um alcoolismo que já existia. Mas, se não fosse ela, outro fator apareceria. Questão de tempo.
O que há de verdade na relação alcoolismo/dor-de-cotovelo não é que a dor-de-cotovelo gera alcoolismo, é que o alcoolismo gera a dor-de-cotovelo. Afinal, quem aguenta conviver com um alcoólatra?.



Eduardo Mascarenhas