quinta-feira, 30 de novembro de 2017

057- Alcoolismo. Onde está a doença primária?



Alberto Duringer – Médico
Vamos imaginar que um médico seja chamado para atender caso de pneumonia e encontre uma família muito preocupada, porque o doente está com febre alta, tosse e intensa dor nas costas.  Todos ali estão alarmados com os fortes sintomas que o doente apresenta e só falam neles.  Já tendo visto diversas situações semelhantes, o médico dá importância menor a estas queixas, identifica que a doença primária é pneumonia e enfatiza a necessidade de antibióticos.  Seria grave equivoco diagnosticar a doença primária como sendo tosse e se limitar a um xarope qualquer ou como sendo dor nas costas, receitando só um analgésico.

O que é fácil na pneumonia, doença aguda e de aparecimento rápido, fica muito mais difícil no alcoolismo, doença crônica, progressiva e de evolução lenta, onde muitos sintomas só vão aparecer anos após o início da enfermidade.  Ao ver o doente pela primeira vez, frequentemente já em estado avançado, o médico ouve do alcoólatra e de seus familiares uma série de queixas ligadas a adoecimento físico importante, a distúrbio de comportamento que pode beirar a loucura e acentuada perda de valores ético-morais, ficando sem saber direito o que apareceu primeiro e onde está a doença básica, a qual deve ser seu primeiro alvo de tratamento.

Até o final do século passado, quase todos admitiam estar a origem do alcoolismo na esfera ético-moral:  o alcoólatra bebia porque era fraco de caráter, porque não dispunha de reservas morais para resistir ao vício ou simplesmente porque não tinha vergonha na cara.  Estando a doença primária nesta área e tendo sua origem numa sem-vergonhice, o tratamento limitava-se a umas lições de moral, alguns bons conselhos ou exortações de cunho religioso, sendo os resultados obtidos bastante precários.

Depois da publicação das obras de Freud, muitos profissionais passaram a ver as coisas de forma diferente e começaram a situar a doença primária na esfera psíquica.  A origem do problema estaria em algum conflito de personalidade, em algum trauma profundamente escondido no subconsciente e este distúrbio fazia com que o doente passasse a beber descontroladamente.  Visto desta forma, o tratamento mudou bastante:  agora, o doente era deitado em um divã, fazendo análise durante muito tempo, na tentativa de descobrir a razão deste seu comportamento.  Gerações de analistas e gerações de alcoólatras perderam seu tempo nesta busca, os últimos bebendo cada vez mais.

Hoje em dia, há muita gente colocando a doença primária na esfera social.  O doente é pobre, às vezes miserável, ganha salário mínimo, mora na favela, tem família numerosa, às vezes passa fome e diante de tantas desgraças juntas, só pode mesmo tornar-se alcoólatra.  Ele bebe para esquecer.  Pensando assim, o tratamento fica difícil, mas não impossível:  vamos admitir este alcoólatra ganhar sozinho a Sena da Loto e transformar-se em um milionário, da noite para o dia, ficando automaticamente curado de sua doença primária, a pobreza.  Agora, rico e com seu problema resolvido, não tem mais motivos para beber ou no máximo vai fazê-lo socialmente.  Alguns exemplos conhecidos mostram que na prática as coisas não são assim e, além do mais, esta teoria tem também o grave defeito de ser muito paralisante;  como o profissional de saúde não pode transformar todos os seus doentes em pessoas que morrem em boas casas, não passem fome e ganhem salários dignos, acaba ele cruzando os braços e diz nada poder fazer:  culpada é a situação do País, que ele não pode modificar.

Neste ponto, vale a pena citar estatística do governo suíço, publicada recentemente em Genebra.  Em 1989, 90% dos suíços beberam dez por cento das bebidas alcoólicas colocadas a venda; os outros 10% acabaram bebendo noventa por cento do álcool disponível no país.  Em outras palavras, na Suíça temos o mesmo número aproximado de alcoólatras que nos demais países ocidentais, embora não tendo, nem de longe, os problemas sociais que enfrentamos no Brasil.  Aqui, o INAMPS estima o número de alcoólatras em 14 milhões, percentualmente número bastante parecido.

Na realidade, a origem do alcoolismo, a doença primária, dificilmente pode ser procurada na área psíquica, social ou ético-moral.  As esmagadoras maiorias dos pacientes adoecem primariamente pelo lado físico; começam a beber sem problemas, como a maioria das pessoas, mas por uma série de fenômenos próprios do seu organismo, como as enzimas que têm no seu fígado ou as combinações que, derivadas do álcool fazem com que seus neurotransmissores cerebrais acabem mais tarde transformando-as em alcoólatras.

Estas enzimas existem no fígado humano para decompor e eliminar o álcool ingerido, transformando-o numa primeira etapa em uma substância bastante tóxica, denominada acetaldeido.  Este acetaldeido, normalmente também completamente decomposto e eliminado, começa em alcoólatras a se combinar com diversos neurotransmissores, como por exemplo dopamina ou serotonina, dando origem a um grupo de outras substâncias, denominadas tetrahidroisoquinolinas, abreviadamente conhecidas como TIQs.  Existem TIQs, como o THP (tetrahidropapaverolina), que têm ação muito parecida com a da morfina.

Pois bem, macacos injetados com TIQs, em experiências feitas na universidade da Carolina do Norte, desenvolveram enorme avidez por álcool, que passaram a beber em grande quantidade, até atingir estágio de consumo irreversível.  Existem ratos os quais, por sua natureza, rejeitam completamente qualquer líquido que contenha etanol, mesmo pequenas quantidades, preferindo passar sede e até morrerem desidratados, injetados com TIQs, transformam-se em grandes consumidores de álcool e morrem de cirrose.  Há muitas outras experiências com animais de laboratório, com resultados semelhantes.  Daí para a frente, fica muito difícil explicar que estes animais estavam bebendo por quaisquer razões psíquicas, éticas ou sociais, porque a origem do processo (doença primária) estava, na realidade, relacionada com a injeção de uma substância química proveniente de alcoólatras humanos.

Em outras palavras, a doença primária, no caso do alcoolismo, é adoecimento físico – a síndrome da dependência química ao álcool etílico – que se situa no cérebro dos alcoólatras e não na mente.  Mesmo que o alcoólatra não tenha mais TIQs circulando, por não estar bebendo, isto não significa seu cérebro ter desaprendido as reações químicas necessárias para seu aparecimento.  Nestes sentido, alcoolismo é doença incurável, porque a capacidade de reagir ao álcool de forma diferente à dos não-alcoólicos fica marcada no organismo.  Não há força de vontade ou reserva moral capaz de impedir a fabricação de TIQs na presença de álcool etílico, nesta pessoa.  Ao voltar a beber, a produção de TIQs retorna também aos níveis de antes, provocando a perda do controle e a instalação de recaída mais ou menos rápida.

Nas dependências químicas, de modo geral, observa-se clinicamente o organismo passar a fabricar e a colocar em circulação substâncias de efeito oposto ao da droga que está sendo usada.  Portanto, na ausência dela, vão surgir sintomas contrários aos dos períodos de uso – é o que se chama de síndrome de abstinência.  Assim, quem for dependente de remédio para dormir, vai ter insônia na noite em que não tomar o comprimido, quem for dependente de café, vai sentir-se sonolento na manhã em que não o ingerir, tudo variando de acordo com a droga utilizada e a intensidade da dependência por ela provocada.

No alcoolismo, alguns TIQs seguem esta linha e têm efeito excitante, já que o álcool é depressor do sistema nervoso central.  Durante o sono, o organismo do alcoólatra elimina álcool e fabricam substâncias excitantes, fazendo-o acordar pela manhã nervoso, trêmulo, inquieto, ansioso, com pulso acelerado, sensações estas todas muito desagradáveis.  Pela experiência, sabe ele que o melhor remédio para voltar ao normal e parar de tremer é ingerir algumas doses de álcool – e o ciclo recomeça.

Note:  o alcoólatra que busca desesperadamente um bar ou padaria que abra às 5 horas da manhã, para tomar sua bebida, não está mais movido pela busca do prazer ou da companhia dos amigos; não está também querendo embriagar-se, ele busca apenas alívio para uma situação muito desagradável, a impedi-lo até de ir para o emprego, através do único remédio que ele conhece, muitas vezes já agora cheio de culpas e vergonhas.  Usa manhas e artifícios para esconder dos outros a quantidade de álcool que bebe; começa a ter medo de estar em lugares ou situações onde talvez não possa beber.  O álcool passa cada vez mais a ter papel preponderante em sua vida, já que, para sentir-se normal, depende quimicamente dele.  Com as várias negações e racionalizações, surge processo de adoecimento psíquico ou comportamental, a sobrepor-se ao físico, já existente.  Na maioria das vezes, só aí passa a chamar a atenção como doente, apesar de o início do processo estar situado muitos anos atrás.

Ao partir do princípio de a doença básica no alcoolismo ser uma dependência química, existe uma ordem no adoecimento:  primeira a física, segunda, psíquica e terceira, espiritual (ou ético-moral), podendo haver muitos anos de intervalo antes de uma área estender-se para outra, até que todas as três estejam comprometidas.

Desta forma, qualquer recuperação, para ser bem-sucedida, tem de seguir a ordem natural das coisas e começar pelo lado físico:  primeiro, o doente tem que parar de beber.  Iniciada a abstinência, pode vir a busca da sanidade psíquica.  Finalmente, encontrando-se o paciente física e emocionalmente equilibrado, sem álcool, pode ele recuperar ou adquirir novos conceitos ético-morais.  Um alcoólatra fragilizado, doente e rejeitado pode fazer isto tudo sozinho?

Torna-se evidente a necessidade de ajuda externa, a qual não deve ser tarefa privativa de Alcoólicos Anônimos.  Médicos, psicólogos, assistentes sociais, agentes de saúde em alcoolismo, cada um na sua área profissional, mas formando uma equipe multidisciplinar, vêm tendo cada vez mais importância no trabalho de recuperar alcoólatras.

Alcoólicos Anônimos, irmandade não-profissional, que não se envolve em controvérsias, que não age por promoção e sim por atração, é sem dúvida recurso da maior importância.   Seus membros não aceitam ajuda externa e não visam a proveito financeiro, ou prestígio pessoal, concentram-se na atividade de ajudar outros alcoólatras a também se recuperarem.

Historicamente, foi o A.A. quem primeiro percebeu a existência de uma história natural do alcoolismo e que a doença básica era um processo físico, tanto é que atua obedecendo a este ordenamento:  primeiro, o alcoólatra é convidado apenas a parar de beber, nem que seja por 24 horas; nesta fase inicial, ainda muito confuso e fragilizado, não se pode mesmo exigir muito mais dele e para confortá-lo e fortalecê-lo, oferecem-se as milhares de reuniões existentes no Brasil inteiro.  Segundo, havendo já um raciocínio mais lúcido e melhor aceitação de sua doença, passa-se a oferecer um programa individual de recuperação, a nível de comportamento e relacionamento com o mundo exterior, que se resume numa escalada de 12 Passos, em seqüência.  Terceiro, abstinente e reconciliado consigo mesmo e com o mundo lá fora, o alcoólatra encontra novos valores espirituais, como, por exemplo, os que se alicerçam nas 12 Tradições de Alcoólicos Anônimos, dispondo-se inclusive a ajudar outros alcoólatras a também se recuperarem.

Tratando-se de doença crônica, o alcoolismo exige permanente ação de recuperação:  trata-se de programa para toda a vida.  Frequentemente, encontram-se recuperações apenas parciais, em que alcoólicos param apenas de beber e mais nada, recusando-se a fazer mudanças no seu comportamento, atitudes e valores; estas pessoas estão abstinentes, mas ainda muito adoecidas psíquica e emocionalmente.  A esta situação, a comunidade de A.A. costuma dar o nome de “porre seco”.

A vigilância sobre o perigo da recaída deve ser permanente, já que é engano pensar que ela se inicia no primeiro gole.  Na realidade, a recaída termina nele, uma vez que aí o processo é inverso:  primeiro, o doente perde valores espirituais, depois fica emocionalmente desajustado, voltando a apresentar distúrbios de comportamento, até que finalmente volta a beber.  Há uma série de sintomas precedentes desta volta e muitos podem ser percebidos pelo próprio ou por pessoas que o cercam, desde que estejam vigilantes.  A recaída emocional pode ser perfeitamente revertida, antes de o doente estar com seu raciocínio crítico tão perturbado, a ponto de achar que o álcool possa ser novamente solução para seus problemas.

Recuperação e recaída são como duas faces da mesma moeda, quem não está se recuperando, estará recaindo e vice-versa.  Esta gangorra, no plano puramente emocional, é absolutamente normal e não deve assustar ninguém além da sua justa medida.  Outros doentes crônicos, o diabético com sua dieta, o reumático com seus exercícios, o hipertenso e seus cuidados com o sal, apresentam de modo diferente a mesma problemática de recuperação e recaída.

No alcoolismo, importante é não deixar qualquer recaída evoluir a ponto de voltar a beber, porque aí entram em ação as poderosas forças da doença primária – a dependência química – e aí a situação fica novamente fora do controle do doente.



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